Começamos? De certeza continuamos. Interrompemos, terminamos, ficamos em pausa. Somos e acontecemos. Para cinzentos e curtos bastam-nos os dias. Se somos, é assim que estamos, acontecemos e fazemos acontecer. Somos gerados e geramos, não nos deixam parar. Desta ou de outra maneira viveremos sempre; agora, aqui, contigo ou com o outro. De pé, deitados, na nossa memória e na memória dos outros. O sangue corre-nos nas veias e nós corremos atarefados nas artérias dos dias da nossa cidade. Não olhamos para nós, menos para os outros e quando, como hoje, de repente me vejo reflectida no vidro da montra de sapatos, nem me reconheço. Que pessoa vê quem me olha, que sou eu afinal? Reconheço-me nas reacções dos outros, nas minhas mãos e nos passos que dou. Conheço o eco da minha voz e como ressoa na minha cabeça. Entrego-me aos nossos dias, às mudanças de tempo, aos cheiros e apetites. Desligo o fio, largo-me do ancoradouro e ando à deriva. As horas são outras, são as minhas quando há consciência. Adormeço e sobe o pano, entra o andarilho, o trintanário das minhas ideias.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
começamos ao contrário
Lamento. Ouve-se o lamento nas ruas, são tempos de tal, ouve-se o sino em pranto e eu lamento o que nos coube em sorte. Se entrar em mim lamento apenas ter acreditado. Não nos lamento, não te lamento nem tão pouco me ausento de mim por tal mas, fica o lamento de me envolver sem sustento. Não me faltas, faltaste apenas enquanto acreditei que suportavas o alimento da minha sensibilidade. Não lamentes, não sintas muito ou pouco pelo afastamento que sempre foi e muito menos por julgares o meu lamento, que cuidas apenas derramar-se pela nossa ausência. Iludes-te, tal como já eu me iludi. Não materializes o meu silêncio como uma manifestação de carência de ti, numa formação mal ajuízada . Sossega e mostra a gratidão em consciência de me teres tomado por conhecido. Ausentaste-te na experiência do universo das impressões, das sensibilidades e intuições. A oportunidade e o ensejo encarregar-se-ão de ti. Boa sorte.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
yumeji's theme
caminhamos lado a lado com as janelas e as portas. as luzes são difusas como os nossos pensamentos. deixamo-nos no intervalo das palavras em momentos infindos. os tecidos cobrem-me o corpo em tons de perfeição e tu deslizas distinto em contemplação. não seremos como eles, dizes.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
(começamos ao contrário)
prolongamos as nossas horas, as nossas e as de cada um, certamente assim seria se o efeito da mudança cessasse. Se ficassemos suspensos no nosso prazo enquanto dilata a nossa existência. adversa esta atitute, adversa ao correr de nós. imprópria à evolução inevitável, inadequada a prosperar-mos enquanto sujeito. o tempo não se compadece com hesitar. quero ser, quero que me note quem quero. não quero representar por caracteres, quero que me sintam pondo em acção nos dias o papel que tenho na peça que não se quer parada. ponho fim ao que me prende inerte. o frio que suporto contem a ânsia do calor, daquele calor que me inflama e me eleva a alma. é desse que quero existir, nesse que quero estar e fazer parte. se-lo! que o calor me corra nas veias, que eu o volte a exalar das ventas.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
(começamos ao contrário)
passamos dias enfermos, dias em que as cores do outono tomam conta do nosso espírito. no meio dos pálidos e das madeiras há os tons rubros e escarlates que nos permitem um feixe de luz que queremos guardar para o inverno. se num flanco nos sentimos fragilizados, noutro encontramos a serenidade. tempo de introspecção, quase num tom de experiementação que tomaria estas cores se o tivessemos de pintar. tempo de passarmos da impetuosa energia dos dias de sol para o intenso rigor do inverno. não gosto destes dias. sou tal como eles e por isso não me agrada saborea-los. recuso o prazer que me dão os tons da alma, de pensamentos outonais. não quero contemplar. aceito sem hesitações a rudeza do frio que me faz desejar mais que nunca o calor, quero antes sentir essa falta desejando-a sem pudor que ficar na languidez da vontade.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
(começamos ao contrário)
Adiantamo-nos na nossa historia. Avançamos nas nossas memorias para podermos continuar...para que deixemos o que passou e entrarmos no que se está a passar, sem nunca conseguimos deixar de pensar que se passará.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Eu...
acordei e não queria, comi e não devia, bebi e não podia, fui e não pretendia, possuí e não desejei, pensei e não disse, tentei e não consegui.
(começamos ao contrário)
Dormi, adormeci de cansada. A vontade de sair desse estado de dormência era nenhuma. Tudo parecia sereno e resolvido nessa tangente do real. Gosto de pensar que a minha cama é confortavel com o teu corpo, que o meu aquece com a ideia da tua carícia, que a rua fica silenciosa com o nosso olhar e que a fome sacia com a ternura. Os problemas e as nossas diferenças não têm papel onde estive e quis ficar. Fico neste limbo e nesta ansiedade de querer que seja assim depois do despertar, depois de ficar de pé, depois do banho, depois de perceber que tenho fome e que há barulho na rua, que não estamos sós e que as nossas diferenças são o que nos torna iguais. Fico esmagada entre o que tenho e o que quero, na esperança de se tornarem iguais tal como nós.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
(começamos ao contrário)
Precisei de apanhar ar, aproveitar o sol que é das poucas coisas que me aquece ainda. Percorri ruas que não existiam antes ali, passei por pessoas que conheço só de nunca as ter ouvido. Ando ou mexe-se a cidade e pareço não ter saído nem um pouco de ao pé de ti. Tenho alguma fome, sem tomar conta dos meus passos entro na confeitaria, peço o que não me lembro de comer e vejo no meu reflexo sobre a montra dos bolos o teu, que não me cabe. O que eu gostava de os ver encaixar, como se fossem sombras do mesmo objecto. A luz muda e a sombra vai rodando, ganhando novas formas, encontrando diferentes superfícies mas o objecto, a essência, o princípio de todas as formas que toma, esse é sempre o mesmo. Como nós deveriamos ser. O sol faz tudo acontecer, rodamos, crescemos, dormimos e envelhecemos segundo os raios de sol. Dele apenas deveriamos depender mas somos muito mais que matéria e a nossa alma tudo confunde. Queria poder dizer-te que estou bem, que estamos e vamos ficar bem. É isso que a alma me pede mas pede-me a tua também e essa...
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
'Feliz ou infeliz'
Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho. De aqui a tão pouco Ainda acabou. Vou ser um cadáver Por quem se rezou. E entre hoje e esse dia Farei o que fiz: Ser qual quero eu ser, Feliz ou infeliz. Fernando Pessoa
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho. De aqui a tão pouco Ainda acabou. Vou ser um cadáver Por quem se rezou. E entre hoje e esse dia Farei o que fiz: Ser qual quero eu ser, Feliz ou infeliz. Fernando Pessoa
(começamos ao contrário)
Esta noite em que o céu traz um brilho mais forte, em que o fim do dia levou o sol reflectido nas ondas do mar, ficou apenas a memória no cheiro do meu cabelo. Uma noite em que o sono teima em não chegar. Tento adormecer e recordo no corpo o quente da areia, a brisa que traz o cheiro daquela criança que brinca com a bola junto à água, aquela criança que não vejo, apenas oiço e imagino. Imagino como é o seu sorriso, a alegria que sente com a nova bola azul e quanto lhe agrada o toque das mãos macias e cheias de ternura da mãe, que o protegem do sol. O cheiro daquele creme. Pareceu-me acordar com o suave toque de um beijo e a tua cara quis encher-me o olhar, esbocei o meu primeiro sorriso ensonado e pensei como é bom acordar. Acordei e percebi que enquanto sonhava acordar apenas tinha conseguido adormecer e que o meu sono se mantinha leve conseguindo pensar acordar com o teu toque. O meu coração decide como durmo, como acordo, como sorriu, como olho para quem me olha. Só ele sabe quem sou. Acho que por instantes consigo deixar de pensar e uma chama invisível ou qualquer coisa impossível faz-me acreditar que em silêncio trocámos palavras de um novo dialecto que imaginamos. Por mais tempo ou gente que passe, por mil anos que seja, será sempre pouco.
*obrigada Jorge Palma
terça-feira, 23 de setembro de 2008
(começamos ao contrário)
Falamos de tudo e de nada como se disso dependesse o futuro. Por momentos achamos que a nossa vida se define naqueles instantes. Tanta urgência em coisa nenhuma. Perdemo-nos do agora a pensar no que poderá vir a ser. Levamos a vida a correr, o momento é sempre a passagem para o que esperamos, até percerbermos que esse passa enquanto pensamos no queremos vir a passar. O equilibrio, o momento de pausa. Acontece e sentimo-nos perdidos, não sabemos o que fazer com tudo o que tanto esperámos, apercebemo-nos que temos receio de nós, das nossas incapacidades. São essas que nos fazem correr e repetir incessantemente os mesmos erros e perder o verdadeiro momento.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Ser o que sou
"Recorro aos dias em que não bebi tanto como hoje para não merecer nada do que digo, presto homenagem ao meu instinto por aquilo que não faço, roer a corda do que me prende ao que quero ser, para que possa finalmente ser o que sou."Virginia Wolf
Falar do que não se consegue explicar
Há tanta suavidade em nada dizer E tudo se entender. Fernando Pessoa
(começamos ao contrário)
- momentos em que fixamos o olhar, que procuramos saber. Diluímos a timidez da nossa cumplicidade nas infinitas manifestações de ternura, nos abraços de calor que parecem eternos. -
A vida como água
Entendo a vida como a água, pode ser serena ou tumultuosa, doce ou salgada e fácilmente se adapta ao que a reveste. Abre o seu caminho na terra mais mole como na pedra mais densa e aquilo que lhe aparece como obstáculo rápidamente se transforma no indicador do novo caminho. Creio que será como a água que temos que viver, não é que isto signifique que apenas temos que nos deixar levar, viver ao gosto das marés, mas antes ser determinados, agir de forma transparente e seguir, com quem nos vamos encontrando, o nosso caminho.
(começamos ao contrário)
De repente era como se fosse o primeiro encontro. Naquele bar simpático, com todos os requisitos que uma situação destas exige: música boa e calma, um espaço atraente e a magnifica vista sobre a cidade e sobre o rio. As ruas serpenteiam e organizam-se numa teia aparentemente desorganizada. O rio reflecte os últimos raios de sol e a lua já se faz notar nos olhares mais atentos. Os pináculos das igrejas cortam a imagem plana e serena do rio que corre ao som da conversa dos dois. São estrangeiros nesta cidade, são estrangeiros ao seu coração.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
(começamos ao contrário)
'Como te foste lembrar com esse pormenor... É verdade que ficou sempre um certa dúvida entre nós. Como conseguimos partilhar tanta coisa, sem nunca sequer falarmos sem ninguém? Desde o início... Talvez nem nunca me tivesses visto e eu conhecia-te. Já te tinha visto cantar e de repente falámos e descompões-me com uma música.' - são sensações interessantes, muitas, fortes e estranhas. Nunca antes me tinha acontecido. Tanta atenção, preocupação, carinho e outros sentimentos que se esperam de quem nos conhece. Retribuir? E como? Que poderia estar eu a retribuir? É um total desconhecido a quem confiei o meu sorriso aberto...não se explica... -
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