quinta-feira, 16 de outubro de 2008

(começamos ao contrário)

prolongamos as nossas horas, as nossas e as de cada um, certamente assim seria se o efeito da mudança cessasse. Se ficassemos suspensos no nosso prazo enquanto dilata a nossa existência. adversa esta atitute, adversa ao correr de nós. imprópria à evolução inevitável, inadequada a prosperar-mos enquanto sujeito. o tempo não se compadece com hesitar. quero ser, quero que me note quem quero. não quero representar por caracteres, quero que me sintam pondo em acção nos dias o papel que tenho na peça que não se quer parada. ponho fim ao que me prende inerte. o frio que suporto contem a ânsia do calor, daquele calor que me inflama e me eleva a alma. é desse que quero existir, nesse que quero estar e fazer parte. se-lo! que o calor me corra nas veias, que eu o volte a exalar das ventas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

(começamos ao contrário)

passamos dias enfermos, dias em que as cores do outono tomam conta do nosso espírito. no meio dos pálidos e das madeiras há os tons rubros e escarlates que nos permitem um feixe de luz que queremos guardar para o inverno. se num flanco nos sentimos fragilizados, noutro encontramos a serenidade. tempo de introspecção, quase num tom de experiementação que tomaria estas cores se o tivessemos de pintar. tempo de passarmos da impetuosa energia dos dias de sol para o intenso rigor do inverno. não gosto destes dias. sou tal como eles e por isso não me agrada saborea-los. recuso o prazer que me dão os tons da alma, de pensamentos outonais. não quero contemplar. aceito sem hesitações a rudeza do frio que me faz desejar mais que nunca o calor, quero antes sentir essa falta desejando-a sem pudor que ficar na languidez da vontade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

(começamos ao contrário)

Adiantamo-nos na nossa historia. Avançamos nas nossas memorias para podermos continuar...para que deixemos o que passou e entrarmos no que se está a passar, sem nunca conseguimos deixar de pensar que se passará.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Eu...

acordei e não queria, comi e não devia, bebi e não podia, fui e não pretendia, possuí e não desejei, pensei e não disse, tentei e não consegui.

(começamos ao contrário)

Dormi, adormeci de cansada. A vontade de sair desse estado de dormência era nenhuma. Tudo parecia sereno e resolvido nessa tangente do real. Gosto de pensar que a minha cama é confortavel com o teu corpo, que o meu aquece com a ideia da tua carícia, que a rua fica silenciosa com o nosso olhar e que a fome sacia com a ternura. Os problemas e as nossas diferenças não têm papel onde estive e quis ficar. Fico neste limbo e nesta ansiedade de querer que seja assim depois do despertar, depois de ficar de pé, depois do banho, depois de perceber que tenho fome e que há barulho na rua, que não estamos sós e que as nossas diferenças são o que nos torna iguais. Fico esmagada entre o que tenho e o que quero, na esperança de se tornarem iguais tal como nós.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Pragma ou Philia ?

quando Eu mostro psique Tu apareces-me eros...

(começamos ao contrário)

Precisei de apanhar ar, aproveitar o sol que é das poucas coisas que me aquece ainda. Percorri ruas que não existiam antes ali, passei por pessoas que conheço só de nunca as ter ouvido. Ando ou mexe-se a cidade e pareço não ter saído nem um pouco de ao pé de ti. Tenho alguma fome, sem tomar conta dos meus passos entro na confeitaria, peço o que não me lembro de comer e vejo no meu reflexo sobre a montra dos bolos o teu, que não me cabe. O que eu gostava de os ver encaixar, como se fossem sombras do mesmo objecto. A luz muda e a sombra vai rodando, ganhando novas formas, encontrando diferentes superfícies mas o objecto, a essência, o princípio de todas as formas que toma, esse é sempre o mesmo. Como nós deveriamos ser. O sol faz tudo acontecer, rodamos, crescemos, dormimos e envelhecemos segundo os raios de sol. Dele apenas deveriamos depender mas somos muito mais que matéria e a nossa alma tudo confunde. Queria poder dizer-te que estou bem, que estamos e vamos ficar bem. É isso que a alma me pede mas pede-me a tua também e essa...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

'Feliz ou infeliz'

Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser, Feliz ou infeliz. Fernando Pessoa

(começamos ao contrário)

Esta noite em que o céu traz um brilho mais forte, em que o fim do dia levou o sol reflectido nas ondas do mar, ficou apenas a memória no cheiro do meu cabelo. Uma noite em que o sono teima em não chegar. Tento adormecer e recordo no corpo o quente da areia, a brisa que traz o cheiro daquela criança que brinca com a bola junto à água, aquela criança que não vejo, apenas oiço e imagino. Imagino como é o seu sorriso, a alegria que sente com a nova bola azul e quanto lhe agrada o toque das mãos macias e cheias de ternura da mãe, que o protegem do sol. O cheiro daquele creme. Pareceu-me acordar com o suave toque de um beijo e a tua cara quis encher-me o olhar, esbocei o meu primeiro sorriso ensonado e pensei como é bom acordar. Acordei e percebi que enquanto sonhava acordar apenas tinha conseguido adormecer e que o meu sono se mantinha leve conseguindo pensar acordar com o teu toque. O meu coração decide como durmo, como acordo, como sorriu, como olho para quem me olha. Só ele sabe quem sou. Acho que por instantes consigo deixar de pensar e uma chama invisível ou qualquer coisa impossível faz-me acreditar que em silêncio trocámos palavras de um novo dialecto que imaginamos. Por mais tempo ou gente que passe, por mil anos que seja, será sempre pouco.
*obrigada Jorge Palma

terça-feira, 23 de setembro de 2008

(começamos ao contrário)

Falamos de tudo e de nada como se disso dependesse o futuro. Por momentos achamos que a nossa vida se define naqueles instantes. Tanta urgência em coisa nenhuma. Perdemo-nos do agora a pensar no que poderá vir a ser. Levamos a vida a correr, o momento é sempre a passagem para o que esperamos, até percerbermos que esse passa enquanto pensamos no queremos vir a passar. O equilibrio, o momento de pausa. Acontece e sentimo-nos perdidos, não sabemos o que fazer com tudo o que tanto esperámos, apercebemo-nos que temos receio de nós, das nossas incapacidades. São essas que nos fazem correr e repetir incessantemente os mesmos erros e perder o verdadeiro momento.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Ser o que sou

"Recorro aos dias em que não bebi tanto como hoje para não merecer nada do que digo, presto homenagem ao meu instinto por aquilo que não faço, roer a corda do que me prende ao que quero ser, para que possa finalmente ser o que sou."Virginia Wolf

Falar do que não se consegue explicar

Há tanta suavidade em nada dizer
E tudo se entender. Fernando Pessoa

(começamos ao contrário)

- momentos em que fixamos o olhar, que procuramos saber. Diluímos a timidez da nossa cumplicidade nas infinitas manifestações de ternura, nos abraços de calor que parecem eternos. -

A vida como água

Entendo a vida como a água, pode ser serena ou tumultuosa, doce ou salgada e fácilmente se adapta ao que a reveste. Abre o seu caminho na terra mais mole como na pedra mais densa e aquilo que lhe aparece como obstáculo rápidamente se transforma no indicador do novo caminho. Creio que será como a água que temos que viver, não é que isto signifique que apenas temos que nos deixar levar, viver ao gosto das marés, mas antes ser determinados, agir de forma transparente e seguir, com quem nos vamos encontrando, o nosso caminho.

(começamos ao contrário)

De repente era como se fosse o primeiro encontro. Naquele bar simpático, com todos os requisitos que uma situação destas exige: música boa e calma, um espaço atraente e a magnifica vista sobre a cidade e sobre o rio. As ruas serpenteiam e organizam-se numa teia aparentemente desorganizada. O rio reflecte os últimos raios de sol e a lua já se faz notar nos olhares mais atentos. Os pináculos das igrejas cortam a imagem plana e serena do rio que corre ao som da conversa dos dois. São estrangeiros nesta cidade, são estrangeiros ao seu coração.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

(começamos ao contrário)

'Como te foste lembrar com esse pormenor... É verdade que ficou sempre um certa dúvida entre nós. Como conseguimos partilhar tanta coisa, sem nunca sequer falarmos sem ninguém? Desde o início... Talvez nem nunca me tivesses visto e eu conhecia-te. Já te tinha visto cantar e de repente falámos e descompões-me com uma música.' - são sensações interessantes, muitas, fortes e estranhas. Nunca antes me tinha acontecido. Tanta atenção, preocupação, carinho e outros sentimentos que se esperam de quem nos conhece. Retribuir? E como? Que poderia estar eu a retribuir? É um total desconhecido a quem confiei o meu sorriso aberto...não se explica... -

(começamos ao contrário)

'Lembro-me do que trazias vestido. Fizeste-me recordar a alegria das minhas raízes. Vi-te antes do concerto e sabia-te na plateia. No fim, quando nos cruzamos perdi o jeito de te dizer Olá, nem sabia como. Tu falaste-me e eu não consegui senão responder' - como serei capaz de explicar passado todo este tempo aquilo que nem eu cheguei a perceber. Pensei que tinha conseguido resolver esta questão mas agora voltou tudo. Voltou tudo como se nunca de cá tivesse saído. Lembro-me do vestido, o cabelo, aquele sorriso e de como ficava cada vez que a via. Por querer falar, por a querer conhecer-

A procura da terra do Nunca

'É o tique-taque do crocodilo, não é?....o tempo corre atrás de todos nós...' Mrs Wendy

de um segundo para o outro, sem intenção, sem consciência e sem controlo, perde-se a criança e nasce o adulto

(começamos ao contrário)

Entre conversas e olhares de reconhecimento buscam no outro aquilo que os uniu em tempos.
Ali está. Está no mesmo lugar, vestido de outras sensibilidades pintado com outras cores mas a dançar ao mesmo tom. Os movimentos embalam as sensações com a ternura com que se embala uma criança. Lembram o dia que involuntariamente se ligaram, lembram como conseguiram manter a proximidade mesmo quando tudo o resto parecia querer o contrário.
Ela continuava a sorrir como se nada afectasse o seu mundo e ele percebia agora onde residiam as fragilidades. Como se disfarçavam os medos e as inseguranças. Mais uma vez surge um entendimento que não se explica

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

(começamos ao contrário)

Percorrem por fim, a par, as ruas que sempre foram de turistas e que agora sendo suas parecem apenas ser uma pequena curiosidade boémia. Salta o cheiro das livrarias e dos alfarrabistas, as conversas das gentes de teatro nas galerias que residem como ponto de encontro. Aqueles que estão de plantão nas esplanadas continuam e, eles viajam sem sair daquele labirinto orgânico de ruas que exploram quase sem olhar. Os sentidos estão apurados.Conversam e são frequentemente assaltados por acontecimentos passados, como se escutassem a voz de um narrador que habita a cabeça de cada um. Tudo faz sentido, agora sim podem ser ditas algumas das palavras contidas por falta de compreensão do seu significado. As ideias têm agora condição de entender o que aquele ser que se mantém ainda exterior a si provoca. Como se fosse um déjà-vu que nunca o foi por falta de percepção. Era real agora e respirava-se fundo naquele café, como quem conclui uma missão.